ITA Linhas Aéreas: vai voar ou não? Um breve histórico sobre a empresa

ITA Linhas Aéreas: vai voar ou não? Um breve histórico sobre a empresa
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Olá pessoal! Hoje o assunto é a ITA Transportes Aéreos, mas é impossível falar dela sem um contexto. Então vamos contar resumidamente a história da Viação Itapemirim e como a idéia de uma empresa aérea surgiu.

ITA Linhas Aéreas: vai voar ou não? Um breve histórico sobre a empresa
Um dos modelos do começo da Itapemirim. Foto: Fabio Taniguchhi/Flickr

E para isso, temos que voltar MUITOS anos no tempo. Muitos mesmo. Mais especificamente, 1953. Após lutar na 2ª Guerra Mundial, o capixaba Camilo Cola recebeu uma indenização do governo, e ela foi usada para seu primeiro “ônibus”… ou melhor, caminhão de transporte de pessoas, como era extremamente comum na época, ou era isso ou eram as “jardineiras”. Assim começava, na cidade do “rei” Roberto Carlos, Cachoeiro do Itapemirim no Espírito Santo, a Viação Itapemirim. Ao longo dos anos a empresa foi crescendo, tanto abrindo novas rotas, quanto adquirindo rotas e concorrentes em boa parte do país. Na época o transporte aéreo ainda era uma coisa restrita aos ricos, portanto o meio de transporte de longas distâncias era o ônibus.

ITA Linhas Aéreas: vai voar ou não? Um breve histórico sobre a empresa
Os Tribus III, modelos fabricados pela própria Itapemirim em Cachoeiro do Itapemirim. O nome Tribus era em alusão aos 3 eixos, inovação trazida pela própria Itapemirim. Foto: Fabio Lima Coelho/Flickr

Além de crescer, a empresa também liderou o pioneirismo e a inovação, trazendo novidades e conforto aos passageiros do setor, como os ônibus de 3 eixos, ônibus leito, melhor estrutura para motoristas e passageiros ao longo das estradas. Além disso, ela fabricava integralmente os próprios ônibus, tanto a carroceria como o chassi. É como se, por exemplo, a Varig ao invés de comprar as aeronaves da Boeing e os motores da General Electric ou Pratt&Whitney, fabricasse as aeronaves e os motores. Nos anos 90, Camilo Cola quis levar sua fórmula de sucesso das rodovias para as aerovias e decidiu entrar no setor aéreo. Tentou comprar a VASP na sua privatização, mas a empresa saiu para outro empresário do setor, mas de Brasília: Wagner Canhedo.

Um dos Boeing 727-100F utilizados pela Itapemirim Cargo. Foto: JetPix/Wikimedia Commons

Ele não desistiu e inaugurou a Itapemirim Cargo, que operou alguns Boeing 727 cargueiros, além de alguns Cessna C208 Grand Caravan, que operaram rotas regionais (inclusive um deles ainda opera no Brasil, pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais) com uma pintura bem alusiva aos ônibus. O negócio não deu muito certo, a empresa contraiu prejuízos, o que a fez vender linhas, ônibus e até empresas do grupo para suas concorrentes. A idéia passou a ser criar uma empresa Low-Cost, mas o Grupo Constantino, outro grupo de empresas de ônibus, teve a mesma idéia antes e lançou a Gol Linhas Aéreas no começo de 2001. Mas a empresa continuava focada em manter seus serviços durante a década, não sem receber ofertas de compra, inclusive do Grupo Constantino.

Um dos Cessna C208B Grand Caravan usados pela Itapemirim nos anos 90. Hoje, essa unidade voa pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Foto: Remi Dallot/JetPhotos

Até que em 2008, Ignez Cola, esposa de Camilo Cola, faleceu. Ambos não puderam ter filhos e optaram por adotar. Por coincidência, adotaram 2 irmãos biológicos, Camilo Cola Filho, o Camilinho e Ana Maria Cola. No entanto, ambos tiveram diferenças de tratamento durante toda a vida, inclusive Camilinho foi a vida toda tido como sucessor de Camilo, enquanto Ana Maria não teve o mesmo tratamento. Isso se refletiu até no testamento de Ignez, que deixou boa parte da sua fortuna obtida na empresa para Camilinho. Ana Maria foi questionar na justiça, mas esse questionamento desencadeou um longa batalha judicial que foi o início da decadência do império.

A frota, boa parte produzida nos anos 90, estava ficando defasada, mas ela não podia renovar a frota por conta de bloqueios judiciais. Para isso, foi necessário vender patrimônios da empresa e assinar contratos de leasing com a JSL, o que aconteceu em 2013. Mas nem isso amenizou o drama financeiro, inclusive com manobras como a de passar operações e ônibus para outra empresa do grupo, a Kaissara, em 2015. Isso não impediu a empresa de entrar em Recuperação Judicial em Março de 2016.

Um dos veículos trazidos pela Itapemirim por leasing. Foto: Lucas de Souza Pereira/Wikimedia Commons

A partir daí, a empresa mudou de rumos. A manobra da Kaissara, foi declarada ilegal pela justiça, as empresas foram fundidas e por fim, o momento de vender a empresa chegou. No finalzinho de 2016, em 29 de Dezembro, a empresa foi vendida a um grupo de investidores. Entravam na historia Sidnei Piva de Jesus, Milton Rodrigues Júnior e Camila de Souza Valdívia.

A história mudou de rumo totalmente, apesar que na Jústiça o imbróglio continuava, com a transferência de linhas da Itapemirim pra Kaissara sendo judicialmente questionada, mesmo com a família Cola fora dos negócios. Meses depois, os investidores se apresentaram e pela primeira vez na atualidade, o assunto “Companhia Aérea” entrou em pauta, além de reestruturações. Mas no mês seguinte, os ônibus trazidos por leasing retornaram aos lessores, trazendo uma certa desconfiança a todo o setor.

A Passaredo durante um curto tempo, já foi da Itapemirim. Foto: Rafael Luiz Canossa/Flickr

Em Julho de 2017, houve uma controversa transação: a Passaredo Linhas Aéreas foi comprada pela Itapemirim. Tanto o braço aéreo quanto o braço rodoviário seria integrado a Itapemirim. Ambas as empresas estavam em recuperação judicial, o que gerou mais desconfiança ao setor. A compra não durou 2 meses, já em Setembro foi desfeita e a Passaredo passou a trilhar novos caminhos.

Foi um período bem turbulento, os investidores chegaram a ser destituídos temporariamente por reclamações de Camilo Cola, que disse que foi lesado na venda. E não apenas isso, mas os salários de dezembro e o 13º não foram pagos, o que geraram várias greves em plena alta temporada. 2018 chegou e com ele, várias apreensões de veículos por falta de pagamento do IPVA e do licenciamento. O inferno não cessou, com a transferência do processo para São Paulo e outras diversas decisões negativas. No fim de Dezembro, o juíz a frente da recuperação quase declarou a falência da empresa, mas um novo plano de recuperação passou.

Bombardier Dash-8 Q400. A Itapemirim pretendia operar com o concorrente canadense do ATR72. Foto: R. Flores/Flickr

Muitas coisas aconteceram, até que no fim de 2019, Camila Valdívia foi destituída judicialmente do comando da empresa e assumiu Sidnei Piva. A partir daí, toma vigor a idéia de uma nova companhia aérea. Inicialmente, considerando todo o histórico da empresa, como vocês viram acima, tanto o setor rodoviário quanto o setor aéreo viram a idéia com muita desconfiança. Os primeiros planos foram divulgados e por serem considerados incondizentes com a realidade do mercado, também foram vistos com desconfiança.

A empresa começou falando em operar os Bombardier CRJ e os Bombardier Dash-8 Q400, que não são homologados no Brasil. Os planos evoluíram para o Airbus A220 (antigo Bombardier C-Series), mas como os outros Bombardier, também não é homologado no Brasil. Um pouco antes da pandemia, foi anunciado um aporte de 500mi de Dólares, de um Fundo Soberano dos Emirados Árabes Unidos.

Maquete do Airbus A220. A Itapemirim também pretendia, por algum tempo, operar com o modelo.

Piva continuava dando entrevistas, falando que queria uma empresa nos mesmos padrões de luxo da Varig e que tentaria atrair o cliente executivo, mas continuava em descrédito perante a comunidade da aviação. Ainda sobre aviões, circularam boatos sobre o leasing de alguns Boeing 737-700 da Copa (que teve sua retirada antecipada).

Os boatos também movimentaram o mercado de cursos preparatórios, coachs e vendas de e-books, além das páginas voltadas a futuros comissários. Alguns perfis anunciaram possíveis datas para a seleção e alguns até venderam materiais preparatórios, atitude que foi duramente criticada até mesmo por outras pessoas desse mercado. E junto com as críticas, vinham as doses altíssimas de desconfiança, não sem razão: a aquela altura haviam indícios frágeis da existência e viabilidade da empresa. Todos se guiaram pelo estado da empresa rodoviária e pra piorar, os poucos planos divulgados estavam totalmente descolados da realidade atual do mercado e do praticado nas últimas décadas.

Até que toda a história passou por um ponto de inflexão, que foi a entrevista dada por Tiago Senna, CEO da ITA, no canal ASA – Aviation, Space & ATC. A entrevista, ocorrida em live, trouxe um público muito acima da média histórica do canal. Milhares de pessoas de todo o setor, a maioria de aeronautas recém-formados ou desempregados, assistiram Tiago Senna apresentar a equipe responsável por formatar a empresa e dar diversos detalhes sobre o futuro da empresa.

Possível pintura da ITA Transportes Aéreos. Foto: Reprodução.

Tiago tamém encerrou de uma vez por todas os rumores sobre o modelo de aeronave operada, ao ser anunciado o Airbus A320. Um dos motivos foi a demissão de 2700 aeronautas da Latam, além de ainda terem sobrado aeronautas da Avianca Brasil desempregados ou em outros empregos. Finalmente, a desconfiança caiu por terra e a grande maioria das pessoas do mundo da aviação passaram a ver a empresa como esperança.

No entanto, Piva continua dando declarações totalmente contraditórias com o que foi dito por Tiago Senna. Tiago disse que a empresa operará seguindo os padrões de mercado, mas melhor que as concorrentes, enquanto Piva diz que as aeronaves terão 110 assentos (64 a menos que a média usada por outras operadoras). Tiago disse que a empresa operará inicialmente rotas domésticas e os internacionais ficariam restritos a América do Sul com as aeronaves que farão as rotas domésticas, porém Piva disse que a empresa operará rotas para Europa e Estados Unidos já em 2022.

Segundo o portal Aeroin, essa aeronave, antigo TC-JUG na Turkish Airlines, deverá vir para a ITA Transportes Aéreos como PS-ITA. Foto: Javier Rodriguez/JetPhotos

Piva disse que o hub será em Vitória, no Espírito Santo e prometeu voos para diversas localidades, enquanto Tiago se mantém fiel ao trio Guarulhos, Brasília e Galeão. Ou seja, podemos ver que Tiago Senna está liderando seu time para fazer uma empresa que faça a diferença dentro do mercado sem se distanciar das boas práticas de mercado, enquanto Sidnei Piva está deslumbrante com a empresa e tendo idéias pouco viáveis considerando o momento da empresa e que outras empresas só adotaram com muito tempo de mercado.

Mas a despeito de toda essa confusão, o processo da companhia aérea está correndo. O corpo técnico está criado e atuando para a certificação da empresa. Recentemente, a empresa comprou o certificado de operador aéreo da ASTA Táxi Aéreo e irá converter para linha aérea, o que irá adiantar a certificação. Em outra frente, o registro da companhia na ICAO foi realizado e o código será IPM. Os slots de operação foram solicitados e autorizados pela ANAC, mediante a conclusão do processo de certificação. As aeronaves são procedentes da IndiGo (3 aeronaves), da Silk Air (2), da Turkish Airlines (2), Tigerair (1), Vueling (1) e Sky Angkor (1), conforme divulgado pelo site Aeroin, e em breve virão pra cá.

Contador de tempo, presente no site da ITA. De acordo com ele, o primeiro voo será em 122 dias, ou seja, entre 19 e 20 de Março de 2021.

O processo seletivo dos funcionários foi anunciado em live conjunta nos canais ASA e Teaching For Free, com um público somado de quase 30 mil pessoas. A primeira fase está voltada para aeronautas (pilotos e comissários) e Despachantes Operacionais de Voo. Após rumores que o processo seletivo seria cobrado (o que foi desmentido rapidamente), ele está ocorrendo normalmente, recebendo uma quantidade de 18 mil candidaturas. Segundo a empresa, os processos para outras áreas ocorrerão em breve. Segundo um contador de tempo no site da ITA Linhas Aéreas, o primeiro voo possivelmente será daqui a 122 dias, em Março do ano que vem, o que bate com os slots solicitados a ANAC.

Tomara que ela nasça e cresça com calma e a serenidade, sem dar passos maiores que as pernas. Mais importante que crescer, é manter as oportunidades de emprego abertas e se estabilizar no mercado. O mercado de milhas, os clientes, aeroviários demitidos ou em outras areas, recém formados, a economia do Brasil e da aviação precisam muito disso. Ela foi da descrença a esperança em um ano sombrio. Agora a nossa torcida fica para que ela passe da esperança para a realidade e os aviões amarelos tomem os aeroportos do Brasil!

22 anos, Belo Horizonte/MG. Apaixonado por aviação e viagens no geral, principalmente viagens aéreas. "A experiência faz pela alma o que a educação faz pela mente".