Entenda o que aconteceu no voo do time do Cuiabá

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De ontem pra hoje, pipocou nas redes sociais, no whatsapp, nos jornais e etc. os vídeos de jogadores do time do Cuiabá passando por “momentos de tensão” a bordo de um avião. Alguns colocaram o piloto como herói por ter conseguido pousar, outros que o avião fez um pouso forçado em Goiânia por falta de combustível, mas independente disso, informações erradas foram divulgadas. Então por isso, vamos explicar aqui o que de fato aconteceu naquele voo.

Antes, gostaria de fazer um disclaimer: as informações ditas aqui não devem ser consideradas de cunho técnico do ponto de vista de operações aéreas e da segurança de voo. Não sou um profissional da aviação, sou apenas um entusiasta da aviação tentando passar o pouco que sei, baseado em experiências pessoais e estudos autônomos. As informações sobre o voo passadas foram extraídas do site Flightradar24 e estão disponíveis por tempo determinado a todos os usuários.

Após jogar contra o Guarani em Campinas, o time do Cuiabá, líder do Campeonato Brasileiro da Série B, retornaria para Cuiabá no dia 14 de Outubro. O time pegaria o voo Gol 1132, que liga o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, com o Aeroporto Marechal Rondon, em Cuiabá. O voo tem uma duração aproximada de 2h15 e sai de Guarulhos as 13h50 (horário de Brasília), chega em Cuiabá as 15h05 (em horário local, 1 hora menos que Brasília) e é operado por um Boeing 737-800.

Neste dia, o voo foi operado pela aeronave de prefixo PR-GZW. O voo partiu de Guarulhos as 14h08, prosseguiu na altitude de 36 mil pés e realizou a descida para pouso normalmente. Tudo bem e seguindo conforme o previsto.

Boeing 737-800 similar ao modelo que fez o voo do Cuiabá

A coisa começa a mudar aqui. Seria uma aproximação comum para a pista 35 daquele aeroporto, se não tivesse um cenário de fortes chuvas e ventos em Cuiabá (o que, diante do cenário de calor e queimadas no pantanal, é algo que sim, deve ser comemorado). Com esse cenário, a tripulação julgou, de forma correta, por não prosseguir o pouso e conduzir um procedimento de arremetida. Isso aconteceu as 15h00 (horário local, 16h em Brasília), portanto 2 horas após a partida de Guarulhos. O procedimento de arremetida é totalmente normal, previsto e é o procedimento certo a se fazer quando não há certeza que a aproximação está dentro dos parâmetros ideais, cenário que se instalava.

Neste momento, é importante eu lembrar que assim como nos carros, o combustível que embarca nos aviões é limitado. Se no seu carro você percebe que tem menos combustível que o necessário para cumprir a distância que você pretende, você para em um posto, completa o combustível e segue viagem. No entanto, como a aviação é sempre redundante, o combustível embarcado não é somente o necessário para a etapa, como é no seu carro.

Print extraído do Flightradar24 que mostra as órbitas que o voo fez sobre Cuiabá, antes de prosseguir para Goiânia.

Um avião só pode ser despachado para voo se tiver uma quantidade mínima de combustível. Essa quantidade, em aviões a jato como um 737-800, é a quantidade necessária para fazer o voo, mais uma quantidade de 10% sobre a quantidade do voo, mais a quantidade necessária para voar e pousar no aeroporto de alternativa, definido no plano de voo, mais 30 minutos em espera a 1500 pés sobre o aeroporto de alternativa. O avião pode ter um pouco mais combustível que isso (desde que não ultrapasse o peso máximo de decolagem), se solicitado pelo comandante durante o abastecimento. Esse combustível a mais se chama trip fuel, ou “combustível da tripulação” em português.

Como o aeroporto estava fechado, a tripulação fez órbitas por um total de 40 minutos, não seguindo um padrão único, mudando de área algumas vezes. Quando deu esse tempo, a tripulação decidiu por seguir até o aeroporto de alternativa, no caso, o Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, onde aguardariam a melhoria das condições. Assim, as 15h40 (horário local, 16h40 em Brasília), a aeronave voltou a subir para prosseguir pra Goiânia. Essa nova etapa do voo foi a 37 mil pés de altitude e prosseguiu sem maiores anormalidades até a capital de Goiás, onde pousou as 17h52 horário local, quase 4 horas após decolar de Guarulhos.

Como o combustível de reserva havia sido gasto, além de aguardar a melhora das condições, a aeronave também foi reabastecida em Goiânia, afinal de contas, tinhamos em Goiânia uma tripulação, um avião, passageiros e um time de futebol que deveriam estar em Cuiabá! O abastecimento seguiu os mesmos critérios que citei acima de combustível mínimo requerido para que, caso se configurassem as mesmas condições que horas antes, a aeronave pudesse alternar novamente em segurança.

Assim, as 19h04, a aeronave decolou novamente com destino a Cuiabá. O voo prosseguiu novamente sem maiores problemas, a 38 mil pés de altitude e dessa vez conseguiu pousar pela pista 35, sem maiores problemas as 19h15 horário local (20h15 em Brasília). Tudo ocorreu sem problemas.

Alternar é um transtorno, pois os passageiros do voo seguinte da aeronave, que no caso foi o retorno a Guarulhos, tinham conexões que foram perdidas e por isso precisaram de receber assistência da companhia, de acordo com a Resolução 400 da ANAC, os tripulantes acabam tendo de ficar em algum local se a tripulação for regulamentar durante ou após o voo para a alternativa e não puderem realizar o voo da volta, a aeronave pode demorar horas para recuperar o atraso dentro de seu trilho, impactando todos os voos seguintes, mas é um preço que todos aceitam pagar para que a aviação seja um dos meios de transporte mais seguros do mundo, afinal de contas, se houvesse uma tentativa de pouso em condições inseguras, poderiam gerar desde danos na aeronave até feridos ou mortos. Inclusive é algo tão recorrente que ocorre várias vezes por dia por todo o mundo. Aqui em Belo Horizonte, onde moro, foram quase 10 voos ontem (14/10) que alternaram para outros aeroportos.

No entanto, se tudo isso é normal e é feito seguindo as normas da segurança da aviação, por que virou notícia e causou um certo “rebuliço” até entre a aviação? Simples, por que como citamos, tinham jogadores de futebol, que são figuras públicas, a bordo do avião.

Alguns jogadores sentiram-se amedrontados com a situação, e por mais que sejam clientes frequentes (pois um time da série B joga pelo menos 19 jogos no ano fora de sua cidade, portanto precisa voar pelo menos 38 vezes no ano ou mais, se o voo tiver conexão), não dá para julgar o medo por não terem a obrigação de saber nada sobre aviação. Só que os “momentos de tensão” durante o voo foram filmados, e como todos sabem, não é a coisa mais rápida de se fazer durante uma situação de medo. E embora o medo se manifeste de cada um de um jeito, na maioria das pessoas o medo costuma paralisar.

Trajeto do retorno do voo para Cuiabá, realizado sem problemas.

O principal problema foi a repercussão que isso teve na mídia. Isso por que, ao invés dos veículos de comunicação procurar profissionais da aviação, simplesmente deduzem os fatos a partir do depoimento de uma pessoa que não tem o menor conhecimento para falar (e que nem fizeram o vídeo com essa finalidade). Não é algo novo, pelo contrário, chega a ser recorrente. E como todos sabemos, os profissionais da aviação não são pessoas inacessíveis.

Portanto, bastaria uma ligação a alguém ou mesmo uma pergunta em alguma rede social para ter informações corretas, mas muitas vezes, infelizmente acaba sendo mais fácil dar a informação de qualquer jeito e sair pedindo nota a empresa aérea de um procedimento comum e previsto. A partir dessas matérias, as pessoas começaram a relacionar errôneamente o fato com o acidente da Chapecoense em 2016, realizar que os jogadores e passageiros de fato corriam risco de vida (risco que não correram em nenhum momento durante toda a situação) ou mesmo ratificar o medo de avião que tem. E infelizmente isso é muito triste, pois pessoas que não sabem a segurança que o setor tem, acabam não tendo acesso a praticidade, a rapidez e o ganho de tempo que a aviação traz devido ao medo criado pela mídia.
Esperamos que, em algum momento, a aviação pare de ser vista como uma atividade negativa e mortal, e que as matérias sejam bem-feitas e de forma esclarecedora.

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22 anos, Belo Horizonte/MG. Apaixonado por aviação e viagens no geral, principalmente viagens aéreas. "A experiência faz pela alma o que a educação faz pela mente".